Sofistas, ontem e hoje!

Na minha infância aprendi certa vez sobre os sofistas, inimigos dos filósofos, pessoas malvadas que gostavam de enganar e blá blá blá… Acredito que a maioria aprendeu assim, correto?

Então, depois de alguns anos (mais de 10 anos) aprendi, pesquisei e tive orientação de como entender um sofista, ou melhor, entender Atenas nesta época!

Engraçado que antes eu pensava: nossa, já pensou se existissem pessoas como os sofistas nos dias de hoje? Como isso seria? É incrível quando você descobre este tipo de coisas! 🙂

Um pouco de história…

A palavra filosofia é grega. Philo (oriunda de Philia) = amor sem compromisso ou amizade + Sophía (oriunda de Sophós = sábio) = sabedoria

Sabendo sobre a palavra filosofia, já conseguimos ter início a ideia que, filósofo é alguém que ama a sabedoria a verdade através da razão. Ser filosofo, assim como ser um cientista, não significa aceitar autoridade, não significa aceitar que uma ideia é verdadeira só porque alguém diz que é, incluindo eu, pede para você pensar por si próprio, pede para você questionar a si próprio e não acreditar em algo só por acreditar. Assim foi a divisão entre o Mito e a Filosofia. (Momento série cosmos!)

Marujos, nesta época, a filosofia se preocupava em saber sobre a realidade, ou seja, um filósofo estava mais concentrado em saber o que é o mundo, do que ele é feito, sobre as questões da filosofia cosmológica, propriamente dita hoje!

Já os sofistas (oriunda sophistés = mestre do saber), se não compreendermos a situação vivenciada por estes, teremos uma visão deturpada. A primeira coisa é sabermos que estamos falando de um grupo que vivenciou Atenas no século V e IV a.C. Os sofistas eram, pensadores e educadores que cobravam pelo ensino (talvez, a primeira aparição da profissão chamada professor). Este era um grupo de pessoas envolvidas nas questões políticas e sociais, quanto a filosofia, deixo breves palavras de Francis Wolff.

A filosofia foi filha da democracia, mas foi, pelo menos, uma criança tardia e rebelde. Nascida do Logos e da democracia, a filosofia grega teve, sem dúvida, um destino edipiano.

Os seguidores de Platão e Aristóteles negativaram a imagem dos sofistas, mas é claro que não era uma briga de coxinhas e petralhas, a coisa era muito mais profunda.

Doxa e Episteme

Essas duas palavrinhas oriundas do grego definem e dão o termo para diferenciar um filósofo de um sofista. Podemos ver a visão nítida dessa diferença em A alegoria da caverna.

Basicamente, sofistas usam a Doxa (opinião) que é apenas a evidência do sensível, ou seja, “ciência parcial”. E os filósofos usam a Episteme (ciência) conhecimento do verdadeiro pela razão.

Para quem leu a alegoria ou já conhecia a história do mito da caverna, irá compreender mais fácil! Temos que agradecer muito aos sofistas que abriram espaço para a experiência e ponto de vista. Fazendo a analogia ao mito, vemos os sofistas como os acorrentados dentro da caverna que acabavam apenas reconhecendo sombras. Assim, Platão acreditava que não se pode conhecer a verdade usando o mundo sensível, então qualquer experiência é mera análise das sombras. Se todos seguissem essa ideia a um traço fundamental da ciência atual não existiria, que é a experiência!

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Quando lembro-me da representação da deusa Themis, me pergunto se estou certo a perceber que assim como os filósofos, a deusa venda sua visão (sentidos) e usa uma balança (opinião) para apurar verdades, que é praticamente o que os sofistas fazem.

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Protágoras

Para aqueles que pensam que nunca existiram grandes sofistas, provavelmente não conheceram Protágoras de Abdera, o terror dos ditadores das verdades.

O homem é a medida de todas as coisas, e nós vimos um exemplo simples na polêmica da internet para saber, se um vestido é branco e dourado ou azul e preto, não entendeu?

Pense que é primavera em Atenas, e temos um visitante da Suécia que diz que o tempo está quente e o visitante do Egito que diz que o tempo está frio. Ambos estão falando a verdade. A verdade depende da perspectiva e, portanto, é relativa! Logo, o homem é a medida de todas as coisas. 

Protágoras que nasceu em Abdera era um professor itinerante, em certo momento mudou-se para Atenas, onde virou conselheiro de Péricles que era o governante. Infelizmente não sobrou nenhuma obra completa de Protágoras, apenas temos os fragmentos de seus textos. Mas não significa que só temos as informações aqui contidas, pesquisem mais a fundo se for de interesse.

A arte de observar

Aristóteles já afirmava: “nós somos aquilo que fazemos repetidas vezes, a excelência não é um ato, e sim um hábito.”

Os sofistas sabiam verdadeiramente muito bem. Como dito antes, os sofistas pegaram bons tempo em Atenas, a “Era de ouro”, momento que a polis estava fervendo, culturalmente falando. Neste momento, os sofistas começaram a se destacar porque eles discutiam a política (no sentido de como usa-la ao seu favor), foi daí que muitos conseguiram riquezas por ensinarem a quem pagasse, para que todo esse ensinamento servia? Principalmente porque Atenas tinha uma visão de democracia onde as pessoas em “corte” defendiam a si mesma, não havia advogado, se você não fosse bom de papo, bom, poderia ser preso. 😉

O que não podemos fazer é pegar as dores de Platão que era um homem de família rica e apedrejar os sofistas, em sua maioria estrangeiros, logo não tinham e não podia ter posse de terras e por aí vai… É totalmente compreensível o que eles faziam para gerar riquezas.

Assim esses professores de estratégias oratórias, com certeza ensinavam jogo de palavras, apelos emocionais, e várias cosias que nem estão no livro do Schopenhauer.

Arthur Schopenhauer, A Arte de ter Razão.

É. Não tem como não lembrar dos sofistas quando lembro de falácias, principalmente depois que li o livro a arte de ter razão, mas uma coisa, o sofistas não eram pilantras.

Uma curiosidade é que, Platão em seus diálogos, usava técnicas de interlocutores que sempre respondiam como ele queria, dando o ar de o mesmo sempre ter a razão (Isso é manipulação, Platão! Que feio! 🙂 ).

Quanto ao livro não recomendo a ler, continue perdendo debates. (Brincadeira!) Depois que eu li esse livro assistia todos os debates políticos de 2014 só para ver se alguém merecia ganhar óleo de peroba. 😀

Jornalistas, marqueteiros, políticos, vendedores etc…

As técnicas sofistas permeiam muitas profissões e muita, põe muita, mesa de bar!

Os atentos quem perambulam de canal a canal em horas de telejornal (rimou) conseguem perceber que um mesmo fato é dito de uma forma totalmente diferente por cada emissora, ora defendendo ou repudiando, e essas ideologias são passadas pela retórica (arte de falar bem). Se expressar para estes tipos de profissão é fundamental.

Quem me chamou atenção por saber usar muito bem o que os sofistas ensinavam é Jordan Belfort, analisando apenas a acurácia de suas técnicas. (Calma, não terá spoilers, caso não tenha lido). Aqui me pego usando a tradicional frase: o livro é muito melhor que o filme! O filme é bom, bem fidedigno ao livro, mas no livro você pode perceber melhor as técnicas que ele usa, e é até mesmo é melhor para aprender 😀

Mas quão fiel à realidade é o livro? Pode ser difícil chegar a conclusões definitivas, especialmente porque algumas das suas histórias mais bizarras, afinal, são mesmo verdadeiras. Ainda assim, fica a tentativa de verificar o que no filme é como na vida real e o que é apenas como na mente de Belfort.

Não poderia dizer melhor que David Haglund, em seu artigo, O que é que tem de verdadeiro O Lobo de Wall Street?

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Mas como nem tudo no mundo é bonito e colorido, assim como Belfort foi um vigarista, muitos ainda são, e não é preciso andar muito para perceber estes. Querendo ou não qualquer um usa ou já usou “malabarismos verbais”, ora para se defender, por se sentir em causas nobres, ou para simplesmente tirar vantagem, como nossos amigos advogados (que tem sua beleza), ou pensou que eu não iria cutucá-los também? Segundo relatos históricos alguns sofistas eram basicamente advogados, e provavelmente fizeram algum grupo para discutir sobre a situação dos que não são bons em oratória que poderiam ser defendidos por outra pessoa.

Não existe segunda impressão!

Minhas conclusões são que infelizmente nós ainda somos condicionados pela precognição das coisas, e acredito que os sofistas antigos e os novos se preocupam! Ou você daria crédito para um candidato a trabalho que não conseguiu desenvolver-se bem nas dinâmicas de grupo? O bom que, para aqueles que seguem a razão, como os filósofos, aparência tem apenas o papel de aparecer, e não é o principal.

Referências

Marilena Chaui – Convite a filosofia, unidade 1
Globo Livros – O livro da filosofia, pagina 42 – 43

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