A história do Mangá

Dos tesouros japoneses, tive contato primeiramente, com o animê, e alguns anos depois li meu primeiro mangá, Death Note, mangá policial que recomendo muito!

No Brasil, a ideia de que todo desenho é infantil, bobo, e inútil para o “mundo adulto” é majoritária (É nesse momento que um cartunista tem um infarto do coração.), mas não perpetua. A propagação desse tesouro cultural, aqui no Brasil, foi iniciado por programas televisivos em 1964 com National Kid, hoje os principais meios de divulgação é a internet e eventos de cultura japonesas especifico para o mundo artístico do mangá e animê, porém não “falaremos” sobre isso, o artigo irá muito mais longe, vamos falar a história do mangá.

Emaki-mono, voltando as origens!

Para quem já viu ou leu Naruto ou algum animê que se passa em épocas antigas japonesas, com toda certeza, já viu algum rolinho de papel que sempre tem mensagens ou desenhos escritos, então, isso é o emaki-mono. Ele não foi criado pelos japoneses, é uma adaptação do original vindo da China.

Básicamente un emaki es una banda de papel enrollada a un palo. Se despliega de derecha a izquierda y se lee por secciones que ocupan desde los treinta a los setenta centímetros. Algunas de las historias cuentan con varios rollos para poder ser leídas en su totalidad, recordando a la estructura de algunos mangas actuales.

Esse avô do manga dentro da cultura japonesa tinha funções sociais, na política, arte e na religião, onde provavelmente teve mais desenvolvimento com os monges, que representavam a mitologia ou fatos histórico com uma única imagem extensa.

Emakimono-Historia-Manga

Com a fomentação artística realizada por causa do emaki, iriam com certeza surgir outra maneira ou perspectiva de se utilizar esse rolo de papel, que foi o kakemono, que a contrário da representação horizontal do emaki, no kakemono arte era feita de forma vertical, onde foi originado o estilo ukiyo-e.

A escrita japonesa

É necessário fazermos uma comparação com línguas nascidas na Europa ocidental (como grego e línguas latinas) para entendermos o quão intrínseco é o mangá na cultura japonesa. (Como o artigo não é sobre a escrita, não falarei de forma detalhada, recomendo a leituras dos links da referência sobre a escrita oriental)

A própria noção representativa alfabética das línguas europeias é relacionada ao conceito da palavras, sentido mais abstrato da oralidade/fonética. Já a língua japonesa é visível em seus sinogramas, a “predominância da visão”,

arvore

basta entender a orientação estrutural para com os objetos em seus sinogramas (mas não são todos relacionados com objetos), que compreendemos a predominância do desenho na cultura japonesa. Gerando assim, um berço de ouro para o mangá.

Katsushika Hokusai

Com o artista, Katsushika Hokusai, vemos na história pela primeira vez o termo mangá, mais especificamente, Hokusai mangá, usando o estilo ukiyo-e, como exemplo temos os quinze volumes de livros cheios de imagens entre os anos de 1814 a 1878.

Ukiyo, que significa mundo flutuante, foi um movimento cultural datado dos anos 1600–1867, período Edo. Esse movimento nascido em um momento de urbanização deu origem ao ukiyo-e. Essa parte, ukiyo-e, do movimento cultural descrito acima que nos importa no momento que, trouxe junto ao movimento literário, lindas expressões visuais como paisagens fantasiosas, pessoas em momentos de lazer, gueixas, paisagens reais, romances, lendas e gravuras eróticas, dando suavidade a vida urbana. Hoje popularmente no ocidente chamada de estampa japonesa.

A Grande Onda de Kanagawa - Katsushika Hokusai

A Grande Onda de Kanagawa – Katsushika Hokusai

Falando um pouco da história deste grande artista japonês, podemos pontuar que o mesmo tinha uma variação de trinta nomes, uma pratica comum entre os artistas japoneses nesta época, o curioso é que, ele contém o maior número de nomes.

Um pouco de História…

Após a reabertura dos portos (Vamos dizer que o Japão teve 200 anos para dar boas características para sua arte) para o ocidente, derivada da revolução Meiji. A terra do Sol nascente foi invadida de material artístico europeu com a chegada dos jornalistas/chargistas europeus, George Bigot, francês, e do Charles Wirgman, inglês. Assim o mangá dá outro salto evolutivo em sua história. De forma semelhante levou um pouco de suas artes para Europa também, tanto é que vemos a influência disso em Van Goh.

Portrait of Pere Tanguy - Van Gogh

Portrait of Pere Tanguy – Van Gogh

Wirgman saiu de Londres para o Oriente,em 1857, como correspondente especial do Illustrated London News. Em 1859, chegou ao Japão, casou-se lá e fixou residência permanente. Em 1862, editou uma revista de humor, Japan Punch, e introduziu os japoneses no universo das charges políticas: ‘os cartuns jornalísticos eram um novo tipo de humor e arte para os japoneses e tão fascinados ficaram que até editaram uma versão traduzida do Japan Punch.’ Wirgman é hoje considerado o patrono damoderna charge japonesa e a cada ano é realizada uma homenagem em seu túmulo em Yokohama. Wirgman freqüentemente usava balões em suas charges e Bigot, por sua vez, os arranjava em seqüência, criando umpadrão narrativo. Esse é um momento importante na evolução histórica dos mangás, quando houve a fusão de uma longa tradição com a inovação, desaguando no nascimento das histórias em quadrinhos como veículo de comunicação.

Capa Japan_Punch_Jul_1878

Meados do século XX, por causa da influência de Wirgmam como chargista, Rakuten Kitazawa, tornara-se um grande chargista japonês, de fama internacional. A primeira arte de Kitazawa, Togosaku e Morubê passeando em Tokyo, foi publicada no Jiji mangá.

Até aqui podemos ver claramente que o universo mangá era claramente dos adultos, com foco principal em crítica social, política e economia, muito diferente dos mangás que conhecemos hoje. Uma coisa bem a “la Charlie Hebdo”. Mas como tudo cria novos horizontes, não foi diferente para o mangá, que até o momento, vimos sair da “sopa primordial e já virou um ser pensante”. Assim, por volta de 1912 a 1925, as histórias infantis como o famoso Norakuro aparecem.

url

Agora com uma certa estabilidade os japoneses dera mais uma consolidada para que o mangá se torne intrínseco a sua cultura, porque do momento que os mesmo começam a publicar suas próprias ideias, começam também, a refinar seus estilos, a ponto de ficarem mais populares que os estrangeiros, havendo uma certa ruptura necessária para se tornar o que se tornou. E podemos perceber isso hoje no Japão, é difícil você ver trabalhos estrangeiros com boa visibilidade.

No entanto, como nada no mundo é só flores e nenhum pais é desconectado de outro, a Crise de 1929 (Grande Depressão), afetou a terra dos samurais. Essa queda generalizada na produção dos países afetou a indústria de mangá, reduzindo-a. Em seguida, o Japão entrou na mesma pegada da URSS de modo que, o pais começou uma industrialização, nacionalização, tendo um aumento no índice de produção muito maior que o dos Estados Unidos e da Europa. Com o Nacionalismo Showa, o mangá infantil passou a ter um escapismo mais evidenciado, ou seja, os mangás falavam de vida na floresta, passados longínquos e viagem ao espaço, para poupar as crianças da realidade.

Com o advento da Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945), boa parte do movimento cultural do Japão foi cessado e junto com ele a produção de mangá.

O incrível é o que essas perturbações mundial fizeram com o habito dos japoneses que não iam a guerra, como crianças, mulheres e idosos procurassem de fato um escapismo. Assim como o futuro do mangá lhe foi tirado, como fênix virá a surgir, por causa da reclusão destes citados. Vale lembra que, leitura de mangá neste momento era uma pratica ilegal, porque os ultranacionalista proibiram a leitura do mangá, a não ser, que fosse os mangás de propaganda militar.

Após o termino da segunda guerra mundial em 1945, foi adotado o Plano Marshall, que tinha em vista o alavanque das economias dos países europeus, no período pós guerra. Logo em seguida o Japão foi contemplado também por esse plano econômico, e o mais importante para nós, o mangá floresceu novamente na indústria japonesa.

Akai Hon

Após a derrota do Eixo, cujo o Japão fazia parte, o país estava destroçado em todos os sentidos da palavra (Little boy e Fat Man fizeram um estrago muito grande).

E como todo mundo que lê mangá e assiste animê, sabe que sempre depois que o principal leva porrada a ponto de quase morrer, ele tira do além forças maiores que tudo e no final o vilão vira seu “amiguinho”. E foi assim com o mangá, (A história do mangá realmente é uma história de mangá).

Os escritores dessas época souberam aproveitar muito bem a moral baixa dos japoneses que ao invés de comer sorvete quando tá triste, vai ler mangá.

O akai hon (ou livrinho vermelho) é ele que faz com que a alma do japonês passe da katana para o mangá, ele foi fundamental para elevação dos ânimos, porque sua liberdade de expressão foi “restituída”, a única trava era que, não poderiam falar mal dos americanos porque as forças de ocupação do exército estavam em solo japonês para manter a ordem e a liberdade de expressão dada por eles. Como o nível econômico do Japão estava baixo a qualidade e custo do akai hon não era a das melhores. O curioso é que, a característica do akai hon permaneceu nos mangashis, revista com vários trabalhos, como a mensal Shonen Gangan, estas revistas de mangás são semelhante as listas telefônicas, assim, elas são lidas, jogadas fora para serem recicladas, gerando uma nova revista.

Osamu Tezuka (Manga-no-kami sama)

Além de ser conhecido como o Deus do mangá e também conhecido como o pai do mangá moderno, ouso dizer que podemos dividir a história do mangá em antes de Tezuka e depois de Tezuka.

Em 1945 Osamu Tezuka começou sua carreira com o akai hon, rapidamente começou a destacar-se com sua primeira obra, Shin Takarajima, feita a pedido de Sakai Shichima, chegando a 400.000 exemplares vendidos. Suas obras mais conhecidas são Astro Boy (Tetsuwan Atomu, no original), Kimba, o Leão Branco (Jungle Taitei) e A Princesa e O Cavaleiro (Ribbon no Kishi), e que foram importante para dar molde ao mangá moderno.

Tezuka e suas obras

Como é seu impacto Sociocultural?

É Necessário ter um entendimento histórico, social e cultural, para conseguir assimilar o enraizamento do mangá dentro da cultura japonesa, como proposto pelo artigo. Assim, não teremos a ideia estereotipada de que mangá é só coisa de otaku, ele realmente faz parte da base artística cultural tradicional do Japão, porque ele tem um significado nacional. As coisas ficam tão sérias que a profissionalização industrial, dá a ele segmentação de mercado, classificando-o em mangás em vários temas, como shoujo (mangá para meninas), shonem (mangá para meninos) e sararimen (voltado para público adulto que trabalha em empresas, salary men).

O mangá está inserido também na educação infantil, ele é usado como reforço no estudo da própria língua ou em temas como ciências, matemática, ou seja, existem mangás especifico para ensinar alguma matéria escolar.

Uma das características principais que dão sucesso ao mangá é saber aproveitar um fato social que existe na sociedade japonesa, o sentimento reservado, explorado em todos os estilos de mangá, e isso causa um vínculo sobre o leitor muito grande, porque ali no mangá irá encontrar o refúgio de sua realidade, que sempre foi uma realidade rigorosa.

379800_208829202539645_100002377001442_421417_1364046475_n

O sucesso exponencial do mangá logo gerou frutos como o animê, que espalhou-se como erva daninha, e por sua vez, gerando os otakus, cosplay, games e etc….

Manga-ka

Agora com quase toda história do mangá contada, vamos falar do manga-ka nos dias de hoje. Ser criador (escritor, desenhista) de mangás é uma coisa muito séria, geralmente tudo o que é extremamente lucrativo é tratado com uma certa seriedade. Seguir esta profissão no Japão, depende de vários fatores, porque não tem um só modo para você começar a ser este tipo de artista, mas as maneiras mais comuns é ser assistente de um mangaká ou participar de um campeonato nestas revistas de mangás periódicas que foi citada. Estimasse mais ou menos seis mil mangaká, com a maioria situada em Tokyo.

A série Bakumam, retratada muito bem como é a vida de um mangaká, mostrando que desenhar nem sempre significa algo divertido. Um destaque que podemos dar é para o Brasileiro Thiago Furukawa Lucas que tem sua própria serie muito bem destacada na mídia.

 

Curiosidades acerca do mangá

Por incrível que possa parecer 50% do papel é utilizado para a impressão de mangás.

A pirataria é um fantasma dessa indústria. Existe até um projeto chamado M.A.G (manga-anime guardians) lançado no dia 28 de juhlo de 2014.

The MAG (Manga-Anime Guardians) Project crosses beyond Manga publishers and Anime companies to consider the possible “brilliant future” of Manga and Anime. At the center of the project are fans all over the world who enjoy Manga and Anime culture. In other words, all of you. Because of piracy, new talent isn’t being cultivated. Through everyone enjoying content in its official form, creation is spurred and new works that stretch beyond imagination can be born. “Thank you for loving Manga and Anime.”

Mangá no mundo acadêmico é objeto de estudos, lembro me dê uma garota que fez o TCC dela sobre a série Death Note. Reuni alguns artigos acadêmicos que fazem de objeto de estudo o mangá como:

Neon Genesis Evangelion: uma crítica metalinguística

Análise Sociológica e Estética Midiática: Reflexões sobre a Aparência e os Impactos das Histórias em Quadrinhos Japonesas

 O Mangá e a Identidade Japonesa no Pós-guerra

O mangá no Brasil

Por fim deixo ao marujos a sugestão de alguns animes que gosto: Death Note. Bakumam, Stein Gates; Arakawa Under The Bridge Psycho-Pass Full Metal

Referências

http://www.intercom.org.br/papers/regionais/nordeste2012/resumos/R32-0825-1.pdf O Mangá e a Identidade Japonesa no Pós-guerra

http://www.mackenzie.com.br/fileadmin/Graduacao/CCL/Pesquisa_e_Extensao/NEON_GENESIS_EVANGELION_UMA_CRITICA_METALINGUISTICA.pdf
Neon Genesis Evangelion: uma crítica metalinguística

http://www.historiaimagem.com.br/edicao12abril2011/esteticamanga.pdf Análise Sociológica e Estética Midiática: Reflexões sobre a Aparência e os Impactos das Histórias em Quadrinhos Japonesas

http://www2.dbd.puc-rio.br/pergamum/tesesabertas/0410903_06_cap_02.pdf O mangá no Brasil

http://www.lpm.com.br/livros/imagens/crise_de_29.pdf
Os números da crise

https://linguageiro.wordpress.com/2012/05/17/mandarimjapones-a-escrita-chinesa-parte-2/ Mandarim/Japonês: A escrita chinesa (parte 2)

http://buqueartdora.com/emakimonos-y-kakemonos-cuando-japon-no-tenia-manga/Emakimonos y kakemonos: cuando Japón no tenía manga

http://domundoflutuante.blogspot.com.br/p/acerca-do-o-mundo-flutuante-ukiyo.html Acerca do «Mundo flutuante» (Ukiyo, 浮世)

Anúncios