Recursividade Social

infinito

Certo dia, a caminho da casa de um amigo em um bairro periférico, ao saltar do ônibus, que justamente dava de encontro a uma ruela que serve de atalho, percebo ao descer a íngreme ruela no final do crepúsculo um ato que me saltou os olhos, uma brincadeira, polícia e ladrão.

O problema não era o horário, nem as crianças e nem a brincadeira, porque não havia um problema, simplesmente havia uma semelhança incrível de um ato real, uma abordagem policial, vulgarmente chamada de batida policial. Com riqueza teatral, detalhes verossímil.

– Encosta, encosta… Mão na parece – gritava com autoridade um nanico menino nas sombras, com uma daquelas lanternas de led que tem a função de piscar em intervalos curtos, enquanto isso, outros cincos meninos parados como lagartixas na parede.

Dessa cena, pode-se pensar o seguinte, o que andam esses meninos assistindo tanto na vida quanto numa tela? Isto não temos como saber, mas podemos especular sobre. Toda vez que uma cena do mundo dos adultos é visto pelas crianças ela um dia vai se repetir e ser encenada enquanto criança, é claro que elas não veem com a profundidade intelectual da coisa, mas sentidos (sentimentos e percepção) a elas não podemos negar. Você pode estar pensando que o futuro desses garotos ou é ser vagabundo ou é ser policial por analisar o todo relatado, mas já pensou que eles poderiam ser atores no futuro? Se você só pensou nas opções “obvias” e não entendeu porque atores, pode se dizer que foi afetado por uma coisa que se pode transmitir pelo que nomeei de recursividade social.

Diferente do senso comum que, esdruxulamente, é o conhecimento padrão ou mais básico de uma sociedade. Que abre-se a boca para cuspir tal expressão sem o entendimento da mesma.

É verdade que é da própria finalidade das ciências e da filosofia o desejo de um conhecimento seguro, sistemático, fundamentado das coisas, em oposição àquele necessariamente imperfeito do que sabemos sem poder explicar como nem porquê. A ciência é justamente a busca dessa razão e modo das coisas. Também é verdade que muitas das noções que formulamos espontaneamente ou recebemos com docilidade se provam, em posterior análise, pobres, deficientes, incompletas e, às vezes, falsas. Mas daí para a impugnação pura e simples do senso comum há um salto gigante que não nos é possível nem lógico realizar. Isso porque antes de chegarmos a certezas científicas ou filosóficas demonstradas, todo o nosso conhecimento se baseia nele. E mesmo fora de nossas áreas de especialidade, às quais devotamos tanto esforço e energia, não temos outro guia para conduzir os afazeres da vida. Só uma ilusão particularmente grave nos faria crer que por termos algum conhecimento avançado em alguma ciência, imediatamente todas as nossas conclusões cotidianas seriam permeadas do mais absoluto rigor, como por osmose.

Neste trecho do artigo de Juliano Cizotti (Que vale muito ler) ele aborta muito bem sobre o senso comum.

Voltando a recursividade social, que de uma forma ética pode ser destacada como positiva ou negativa quanto aos seus feitos, mas lembrando que ela é a estrutura ou algoritmo de transmissão técnica. Esse algoritmo, geralmente tem poucos passos em sua estrutura, porém coloca-se sempre em loop, e sempre é passado do velho para o novo, do adulto para a criança, do empregado para o estagiário. Servindo de base para a transmissão do senso comum. Um exemplo desse elementos transmitidos são o machismo, corrupção, a linguagem, síndrome de vira-lata, trabalho e cultura, assim, são elementos instaurados na sociedade que não há um único mestre, todos são.

E o mais curioso é a propagação dessa recursividade em todas as áreas, existe um documentário, que deixarei aqui em baixo, que irá explanar sobre o remix (Combinar ou editar material existente para produzir algo novo) que pode exemplifica muito bem a recursividade, não pelo teor do remix, sim, pela transmissão compulsória na indústria.

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